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    April, 2008

    Bible!

    "For I am merciful, saith the Lord, and I will not keep anger forever." (Jeremiah 3:12)
    "Ye have kindled a fire in mine anger, which shall burn forever." (Jeremiah 17:4)

    "If I testify about myself, my testimony is not valid." (John 5:31)
    "Jesus answered: Even if I testify on my own behalf, my testimony is valid." (John 8:14)

    "And Jesus coming, spoke to them, saying: All power is given to me in heaven and in earth." (Matthew 28:18)
    "the whole world is under control of the evil one." (1 John 5:19)

    And Jesus said, "For judgement I am come into this world." (John 9:39)
    "I came not to judge the world" (John 12:47)

    "Let your light so shine before men, that they may see your good works, and glorify your Father which is in heaven." (Matthew 5:16)
    "Take heed that ye do not your alms before men, to be seen of them: otherwise ye have no reward of your Father which is in heaven." (Matthew 6:1)

    "Jacob said, 'I have seen God face to face, and my life is preserved.'" (Genesis 32:30)
    "No man hath seen God at any time." (John 1:18)

    We should fear God (Matthew 10:28)
    We should love God (Matthew 22:37)
    There is no fear in love (1 John 4:18)

     

    Love?

    "I will also send wild beasts among you, which shall rob you of your children." (Leviticus 26:22)

    "Now kill all the boys. And kill every woman who has slept with a man, but save for yourself every girl who has never slept with a man." (Numbers 31:17-18)

     

    March, 2008

    Femme

     
     
    «toute la femme a besoin de trois hommes: un pour l'aventure et le rigolage, un pour la conversation et un pour le sexe.»
     
     
    March, 2008

    é para saúde? não? então é ao lado!

     

    Era uma vez um lindo canteirinho à beira mar plantado onde reinava a ignorância e a pouca vontade de saber, onde a aparência era ainda bem mais do que o ser.

    Para os governantes importava mostrar ao mundo uma baixa taxa de iliteracia e uma alta taxa de licenciados, fosse a que custo fosse. Por isso passavam o tempo a guerrear os professores e a criar leis facilitistas, sem se preocuparem em criar condições para um bom sistema de ensino, justo e, acima de tudo, em FUNCIONAMENTO!

    Os papás desse lindo país preferiam assim, porque dessa forma todos os seus lindos filhinhos poderiam em breve ser (todos!) senhores doutores!

     

    Foi neste contexto que, por boato, se ouviu falar em «pré-requisitos»! O único documento informativo estava afixado numa zona da escola à qual, por incrível que pareça, os alunos não têm acesso (sim, refiro-me à portaria!).  À falta desse, a única fonte segura seria o guia de candidatura 2008/2009, que só aparece por aí em meados de…Junho? Informando de uns tais «pré-requisitos», palavra mágica, para os quais o prazo limite é Março!

    De guichet em guichet deparamo-nos com a triste realidade de um país do «deixa andar» em que quem tem obrigação de informar não o faz porque…também não sabe. Na secretaria a responsabilidade é lançada no Gabinete de Apoio aos Exames e ao Acesso ao Ensino Superior (ou com qualquer outro nome que nada invalida na sua função). E é aqui que começa o mais caricato!

    Qual é o prazo para as matrículas?

    Prazo?

    Hmmm..Não sei, mas olhe que é capaz de ser….

    E os pré-requisitos? Onde me devo dirigir?

    Ora pré-requisitos…então…se é para Saúde…

    Não, não é para saúde…

    Se é para Saúde é só ir ali ao sítio tal…

    Não é para saúde!

    Ai não é? Ah bom…então não sei, tem que falar com a própria Faculdade.

    A «própria» faculdade diz que não sabe de nada e encaminha novamente para o GAEAES que por sua vez encaminha para os papéis que apenas nos dizem o que já sabemos. Papéis esses que nos encaminham para a deliberação Y que, diga-se de passagem, simplifica bastante a situação, informando que «atestados médicos é no acto de matrícula». Porém essa mesma deliberação encaminha para umas tantas outras deliberações e anexos, tudo menos claros. E ninguém nos dá a informação de que realmente precisamos!

    Na instituição de ensino superior mais próxima, onde nos deveríamos dirigir se, por acaso, pretendêssemos seguir SAÚDE a situação é idêntica, mas levada ao extremo:

    olhe está a ver-me? Sim não sou nenhum holograma. Eu estou aqui mas como esse papel aí na porta diz que só atendemos até às 5h00 já não a posso atender.

    Queria só saber sobre os pré-requisitos.

    Pré-requisitos? Isso agora já não é nada connosco!

    Então a quem me devo dirigir?

    É para a Saúde?

    Não!

    Ah! É que se fosse para a Saúde deveria fazer assim…

    Não é para a Saúde.

    Ai não é para a Saúde? Então afinal o que quer saber?

    Onde me devo dirigir!

    Ah quer saber que faculdades pedem pré-requisitos!! Isso está ali afixado!

    Contactando novamente a «própria» universidade a situação mantém-se:

    Ah, pré-requisitos…vou passar aos serviços académicos.

    (e depois de nos darem música durante 5 minutos)

    Boa tarde, Universidade…..

    Eu queria informar-me sobre os pré-requisitos.

    Ah! Pré-requisitos…mas olhe que isso é com os serviços académicos!

    (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!)

    É que os serviços académicos fecham às 5h30.

     

     

    E no final quem se vai responsabilizar quando os que não querem vir a ser os Senhores Doutores tão amados pela sociedade ficam às portas da Universidade porque ninguém os soube informar?

    March, 2008

    girls

    Girls are like
    apples on trees. The best
    ones are at the top of the tree.
    The boys don't want to reach for
    the good ones because they are afraid
    of falling and getting hurt. Instead, they
    just get the rotten apples from the ground
    that aren't as good, but easy. So the apples
    at the top think something is wrong with
    them, when in reality, they're amazing.
    They just have to wait for the right
    boy to come along, the one
    who's brave enough
    to climb
    all the way
    to the top
    of the tree.

    March, 2008

    conflito israel - palestina por Freud

    Freud would not have been surprised at the continuing conflict in the Middle East. He predicted as much 70 years ago.

    We can predict Freud's response because of a letter he wrote to Dr. Chaim Koffler in 1930. In February 1930 Freud was asked, as a distinguished Jew, to contribute to a petition condemning Arab riots of 1929, in which over a hundred Jewish settlers were killed.  This was his reply:

    Letter to the Keren Hajessod (Dr. Chaim Koffler)

    Vienna: 26 February 1930

    Dear Sir,

    I cannot do as you wish. I am unable to overcome my aversion to burdening the public with my name, and even the present critical time does not seem to me to warrant it. Whoever wants to influence the masses must give them something rousing and inflammatory and my sober judgement of Zionism does not permit this. I certainly sympathise with its goals, am proud of our University in Jerusalem and am delighted with our settlement's prosperity. But, on the other hand, I do not think that Palestine could ever become a Jewish state, nor that the Christian and Islamic worlds would ever be prepared to have their holy places under Jewish care. It would have seemed more sensible to me to establish a Jewish homeland on a less historically-burdened land. But I know that such a rational viewpoint would never have gained the enthusiasm of the masses and the financial support of the wealthy. I concede with sorrow that the baseless fanaticism of our people is in part to be blamed for the awakening of Arab distrust. I can raise no sympathy at all for the misdirected piety which transforms a piece of a Herodian wall into a national relic, thereby offending the feelings of the natives.

    Now judge for yourself whether I, with such a critical point of view, am the right person to come forward as the solace of a people deluded by unjustified hope.

    Your obediant servant,

    Freud

     

    P.S.  apareceu no stumble...

    January, 2008

    communicate

    dear tao


    today i read a book called NATURAL SCIENCE.

    it had a picture of two ants standing very close together.

    above the picture it said ‘worker ants communicate by rubbing their antennae.’

    i wanted to communicate with you by rubbing our heads together but you weren't here so i rubbed my head against the wall instead and the wall said ‘i'm sad.’

    my eyes made 3 tears and i pet the wall until we both fell asleep.


    ellen

    November, 2007

    Há sem dúvida quem ame o infinito

    Há sem dúvida quem ame o infinito,
    Há sem dúvida quem deseje o impossivel,
    Há sem duvida quem não queria nada -

    Tres tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
    Porque eu amo infinitamente o finito,
    Porque eu desejo impossivelmente o possivel,
    Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
    Ou até se não puder ser...
     
    Álvaro de Campos
    November, 2007

    és bem tolo, oh pessoa!

    Olá, guardador de rebanhos,
    Aí à beira da estrada,
    Que te diz o vento que passa?

    Que é, vento, e que passa,
    E que já passou antes,
    E que passará depois.
    E a ti o que te diz?

    Muita cousa mais do que isso.
    Fala-me de muitas outras cousas.
    De memórias e de saudades
    E de cousas que nunca foram.

    Nunca ouviste passar o vento.
    O vento só fala do vento.
    O que lhe ouviste foi mentira,
    E a mentira está em ti.
     
    Alberto Caeiro
    October, 2007

    It's me and you...

    It’s me, and you, and all the things we do,
    Just to go a little more, just to find a better view,
    Despite of young hearts we know how it’s gonna be,
    We don’t get for your crops cause we have our own tree,
    There’s nothing wrong with your ways, but we can dance to this song,
    We just wanna build and leave the bridge out of the silent void.

    If there’s something we could do,
    To escape this silent void,
    Just a word that we could say,
    That would burn this silent door,
    No we can’t stay here no more…

    (We’re in love.. We’re in love)
    I say love… I say love

    And there’s no one I would rather be with,
    Nothing I would rather do,
    Cause I’ve got this dream, this heart that beats,
    Outside this silent world, and I’ve got you.

    …and me, and all that we could be,
    Out if this black hole show, by the black sea,
    We’re all surrounded by the old, just running their stuff,
    We don’t really care for them, they don’t really care for us,
    You see, I don’t wanna be what they meant all of us to be,
    Shaking hands with the sales artist, the master degrees,
    With the, lost kids and the loveless ones,
    Yeah I can look like them but I’ll never be one,
    And if you wanna be the bullet out of this gun,
    Then tell us please what you’re made of,
    Oh tell us please what you’re made of,
    Oh tell me please are you in love? Like me…
    I say love…

    And there’s no one I would rather be with,
    Nothing I would rather do,
    Cause I’ve got this dream, this heart that beats,
    Outside this silent world, and I’ve got you.
    We’re falling in the lights of others,
    I hold her willed and we keep spinning,
    We’re falling in the lights of others,
    I guess our mind is made up,
    We’re gonna quit the state of,
    We can leave this silence…
    We can leave this silent… void.
    We can leave this silent… void.
    We can leave this… void.
    We can leave this silent… void.

    I say love… I say love…

    And there’s no one I would rather be with,
    Nothing I would rather do,
    Cause I’ve got this dream, this heart that beats,
    Outside this silent world, and I’ve got you.
    Outside this silent world a heart beats,
    Outside this silent world well I’ve got you,
    Outside this silent world my heart beats,
    Outside this silent world well I’ve got you.
     
    David Fonseca
    October, 2007

    Ó sino da minha aldeia

    Ó sino da minha aldeia,
    dolente na tarde calma,
    cada tua badalada
    soa dentro da minha alma.
     
    e é tão lento o teu soar,
    tão como triste da vida,
    que já a primeira pancada
    tem o som de repetida.
     
    por mais que tanjas perto
    quando passo, sempre errante,
    és para mim como um sonho,
    soas-me na alma distante.
     
    a cada pancada tua,
    vibrante no céu aberto,
    sinto mais longe o passado,
    sinto a saudade mais perto.
     
    fernando pessoa
     
    October, 2007

    Chuva Oblíqua

    Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
    E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
    Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso.
    E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
    O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
    Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
    Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
    E sente-se chiar a água no facto de haver coro...
    A missa é um automóvel que passa
    Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
    Súbito vento sacode em esplendor maior
    A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
    Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
    Com o som de rodas de automóvel...
    E apagam-se as luzes da igreja
    Na chuva que cessa...
    Fernando Pessoa
    September, 2007

    A luavezinha

    A luavezinha

    (“primeira estória para a Rita”)


    Minha filha tem um adormecer custoso. Ninguém sabe os medos que o sono acorda nela. Cada noite sou chamado a pai e invento-lhe um embalo. Desse encargo me saio sempre mal. Já vou pontuando fim na história quando ela me pede mais:

    - “E depois?”

    O que Rita quer é que o mundo inteiro seja adormecido. E ela sempre argumenta um sonho de encontro ao sono: quer ser lua. A menina quer luarejar e, os dois, faz contarmo-nos assim, eu terra, ela lua. As tradições moçambicanas ainda lhe aumentam o namoro lunar. A menina ouve, em plena verdade da rua: "olha os cornos da lua estão para baixo: vai cair a chuva que a lua guarda na barriga".

    Me deu, um destes dias, a ideia de lhe contar uma estorinha para fazer pousar o sonho dela. E desencorajar seus infindáveis “e depois”. Lhe inventei a estória que agora vos conto.

    Era uma avezita que sonhava em seu poleirinho. Olhava o luar e fazia subir fantasias pelo céu. Seu sonho se imensidava:

    - “Hei-de pousar lá, na lua”.

    Os outros lhe chamavam à térrea realidade. Mas o passarinho devaneava, insistonto: vou subir lá, mais acima que os firmamentos. Seus colegas de galho se riram: aquilo não passava de menineira. Todos sabiam: não havia voo que bastasse para vencer aquela distancia. Mas o passarinho sonhador não se compadecia. Ele queria luarar-se. Pelo que o tudo ficava nada.

    Certa noite, de lua inteira, ele se lançou nos céus, cheio de sonho. E voou, voou, voou. Perdeu conta do tempo. Em certo momento ele não sabia se subia, se tombava. Seus sentidos se enrolaram uns nos outros. Desmaiou? Ou sonhou que sonhava? Certo é que seu corpo foi sacudido pelo embute de um outro corpo.

    E pousou naquela terra da lua, imensa savana pétrea. A ave contemplou aquela extensão de luz e ficou esperando a noite para adormecer. Mas noite nenhuma chegou. Na lua não faz dia nem noite. É sempre luz. E o pássaro cansado de sua vigília quis voltar à terra. Bateu as asas mas não viu seu corpo se suspender. As asas se tinham convertido em luar. Com o bico desalisou as penas. Mas penas já nem eram: agora, simples reflexos, rebrilhos de um sol coado. O pássaro lançou seu grito, esses que deflagrava antes de se erguer nos céus. Mas sua voz ficou na intenção. A ave estava emudecida. Porque na lua o céu é quase pouco. E sem céu não existe canto.

    Triste, ela chorou. Mas as lágrimas não escorreram. Ficaram pedrinhas na berma da pálpebra, cristais de prata. A avezita estava cativa da lua, aprisionada em seu próprio sonho. Foi então que ela escutou uma voz feita de ecos. Era a própria carne da lua falando:

    - “Eu sonhei que tu vinhas cantar-me.
    - “E porquê me sonhaste?
    - “Porque aqui não há voz vivente.
    - “Eu também sonhei que haveria de pousar em ti.
    - “Eu sei. Agora vais cantar em luar. Eu sonhei assim e nenhum sonho é mais forte que o meu”.

    É assim que ainda hoje se vê, lá na prata da lua, a pupila estrelinhada do passarinho sonhador. E nenhuma criatura, a não ser a noite, escuta o canto da avezinha enluarada. Sobre as primeiras folhas da madrugada, tombam gotas de cacimbo. São lagriminhas do pássaro que sonhou pousar na lua.

    - “E depois, pai?”


    Mia Couto in "Contos do nascer da terra"
    September, 2007

    gosto

     
     
    ..gosto das vidas através das janelas...
     
     
    April, 2007

    baaah...

     
     
     
    ...fui...
    April, 2007

    O Deus dos Tristes

    Pai nosso, de todos nós,
    dos pobres, dos sem abrigo,
    dos marginais e dos desprotegidos,
    dos deserdados
    e dos donos da miséria,
    dos que te seguem
    e dos que em ti já não cremos.
     
    Desce dos teus Céus
    pois aqui está o inferno.
    Desce do teu trono,
    pois aqui há guerras, fome, injustiças.
    Não faz falta que sejas uno e trino,
    apenas um que tivesse vontade de ajudar, nos bastaria.
    Qual é o teu reino? O Vaticano?
    A banca? A alta política?
    O nosso reino é Nigéria, Etiópia, Colômbia, Hiroshima.
    O pão nosso de cada dia
    São as violações, a violência doméstica,
    a pederastia, as ditaduras,
    as alterações climáticas.
     
    Na tentação caio diariamente,
    não há manhã em que não esteja tentado de criar um Deus humilde
    um Deus justo.
    Um Deus que esteja na terra,
    nos vales, nos rios.
    um deus que viva na chuva
    que viaje através do vento
    e acaricie a nossa Alma.
    Um Deus dos tristes, dos homossexuais.
    Um Deus mais humano...
    Um Deus que não castigue, ensine.
    Um Deus que não ameace, proteja.
     
    Que se me caio, me levante,
    que se me perco, me estenda a sua mão.
    Um Deus que se erro não me culpe
    E se duvido me entenda,
    pois para isso me dotou de inteligência:
    para duvidar de tudo.
     
    Pai nosso, de todos nós,
    Porque nos esqueceste?
    Pai nosso, cego, surdo e desocupado,
    Porque nos abandonaste?
     
    Txus di Fellatio
    March, 2007

    prende-me a ti

    (...)
    Foi então que apareceu a raposa.
    - Olá, bom dia! - disse a raposa.
    - Olá, bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou mas não viu ninguém.
    - Estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira.
    - Quem és tu? - perguntou o principezinho. - És bem bonita...
    - Sou uma raposa - disse a raposa.
    - Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho. - Estou triste...
    - Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Não estou presa...
    - AH! Então, desculpa! - disse o principezinho.
    Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
    - O que é que "estar preso" quer dizer?
    - Vê-se logo que não és de cá - disse a raposa. - De que é que tu andas à procura?
    - Ando à procura dos homens - disse o principezinho. - O que é que "estar preso" quer dizer?
    - Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar - disse a raposa. - É uma grande maçada! E também fazem criação de galinhas! Aliás, na minha opinião, é a única coisa interessante que eles têm. Andas à procura de galinhas?
    - Não - disse o principezinho. Ando à procura de amigos. O que é que "estar preso" quer dizer?
    - É a única coisa que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
    - Laços?
    - Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo...
    - Parece-me que estou a começar a perceber - disse o principezinho. - Sabes, há uma certa flor...tenho a impressão que estou presa a ela...
    - É bem possivel - disse a raposa. - Vê-se cada coisa cá na Terra...
    - OH! Mas não é da Terra! - disse o principezinho.
    A raposa pareceu ficar muito intrigada.
    - Então, é noutro planeta?
    - É.
    - E nesse tal planeta há caçadores?
    - Não.
    - Começo a achar-lhe alguma graça...E galinhas?
    - Não.
    - Não há bela sem senão...- disse a raposa.
    Mas a raposa voltou a insistir na sua ideia:
    - Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu, caço galinhas e os homens, caçam-me a mim. As galinhas são todas iguais umas às outras e os homens são todos iguais uns aos outros. Por isso, às vezes, aborreço-me um bocado. Mas, se tu me prenderes a ti, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo não me serve de nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando eu estiver presa a ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do barulho do vento a bater no trigo...
    A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
    - Por favor...Prende-me a ti! - acabou finalmente por dizer.
    - Eu bem gostava - respondeu o principezinho - mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer...
    - Só conhecemos as coisas que prendemos a nós - disse a raposa. - Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, prende-me a ti!
    - E o que é que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
    - É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto...
    O principezinho voltou no dia seguinte.
    - Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito...São precisos  rituais.
    - O que é um ritual? - perguntou o principezinho.
    - Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - respondeu a raposa. - É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias e uma hora, diferente das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, têm um ritual, à quinta-feira, vão ao baile com as raparigas da aldeia. Assim, a quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear para as vinhas. Se os caçadores fossem ao baile num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.
    Foi assim que o principezinho prendeu a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
    - Ai! - exclamou a raposa - ai que me vou pôr a chorar...
    - A culpa é tua - disse o principezinho.- Eu bem não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quiseste que eu te prendesse a mim...
    - Pois quis - disse a raposa.
    - Mas agora vais-te pôr a chorar! - disse o principezinho.
    - Pois vou - disse a raposa.
    - Então não ganhaste nada com isso!
    - Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo...
    Depois acrescentou:
    - Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.
    O principezinho lá foi ver as rosas outra vez.
    - Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada - disse-lhes ele. - Não há ninguém preso a vocês e vocês não estão presas a ninguém. Vocês são como a minha raposa era. Era uma raposa perfeitamente igual a outras cem mil raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e, agora, ela é única no mundo.
    E as rosas ficaram bastante incomodadas.
    - Vocês são bonitas, mas vazias - ainda lhes disse o principezinho. - Não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é perfeitamente igual a vocês. Mas, sózinha, vale mais do que vocês todas juntas, porque foi a que eu reguei. Porque foi a ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo.. Porque foi a ela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu vi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa.
    E então voltou para o pé da raposa e disse:
    - Adeus...
    - Adeus - disse a raposa. Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
    - O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
    - Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
    - Foi o tempo que eu perdi com aminha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
    - Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa...

    - Sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.

    (...)

    O Prinicipezinho, Saint-Exupéry

    March, 2007

    Hoje eu estou feliz...

    Hoje eu estou feliz....
    se é do sol...ou da música, não sei...
    talvez algo mais...;)
     
    Hoje eu estou feliz...
     
     
    Hoje...eu SOU feliz...
     
     
    tenho dito.
    March, 2007

    o teu general...

    Antigo Soldado: (...) Com o general pois! (...) Um homem às direitas! Quem fez aquele não faz outro igual...
     
    Manuel: Se ele quisesse...
     
     
    Vicente: Se ele quisesse?! Mas se ele quisesse o quê?! Vocês ainda não estão fartos de generais?
                  Cornetas, tambores, tiros e mais tiros...Bestas!
     
                  Tu José: Tens sete filhos com fome e com frio e vais para casa com as mãos a abanar. Julgas que o Gomes de Freire os vai vestir?!
     
                  E tu, que não comes desde ontem - estás com pressa de ir para a guerra? Julgas que matas a fome com balas? Idiotas! Nenhum de vocês tem um tecto que o abrigue no Inverno, nenhum de vocês tem onde cair morto, mas, mal passa um tambor, não há um só que não queira ir atrás dos soldados. Catrapum! Catrapum! Catrapum, pum, pum!....Idiotas!!
     
                 Olha lá: Se o teu Gomes Freire é tão bonito como dizes e se a «rapaziada» lá do regimento é como tu a descreves, explica lá o que estás a fazer aqui...
                Não abres a boca? Pois então falo eu!!
                Este homem está aqui porque já não serve para nada. Ouviram?
                Está aqui porque já não interessa aos generais. O que eles querem é servir-se da gente! Quando um homem chega a velho e já não pode andar por montes e vales, de espingarda às costas, para eles se encherem de medalhas, tratam-no como um pobre fugido à polícia: abandonam-no, mandam-no para a porta das igrejas a pedir esmola, e que a virgem se compadeça com ele...
     
               Que te dizem eles, os teus generais, os tais com quem te bateste, quando te encontram na rua, miserável, sem um naco de pão para comer? Sabes o que te dizem? Sabes? Viram-se para as mulheres e justificam os cinco réis da esmola, dizendo que te bateste como um valente na companhia do Rossilhão. E tu? Matas a fome com os cinco réis e com a recordação da campanha. Mas eles...eles vão para casa encher a pança! Disso podes estar certo...
     
     
    Antigo Soldado: O meu general não é desses...
     
    Vicente: Não é desses...não é desses...então de quais é? Duns que não existem?! É um santo o teu general...
     
    Antigo Soldado: Não é um santo, é um homem como todos nós, mas...
     
    Vicente: Mas? Não há mas nem meio mas! O que há é homens e generais. Ou se é por uns ou se é por outros.
                O teu general então, é perfeito: nem sequer é português...
     
                Estrangeirado: estrangeirado, é o que ele é!
     
    Manuel: Estrangeirado ou não, é capaz de se bater com os senhores do Rossio...
     
    Vicente: Mas não se bate! Vais ver que não se bate! E sabes porquê?
                 Porque está feito com eles, porque essa gente é toda igual...o que interessa a uns interessa a outros, e a todos interessa que a gente viva assim...
     
     
    Luís de Sttau Monteiro
    Felizmente há Luar
     
    March, 2007

    Chão

    Hoje pisei o chão e estranhei.
    Onde se esconde o céu que me pertence?
    Que é do arco-íris que outrora me preencheu?
    O reflexo do Sol
    No chão que agora piso
    Lembra-me o brilho que já tive
    E que a negra sombra agora ofusca e consome.
    Hoje pisei o chão estranhei.
    Banal.
    Como o dia-a-dia que passa por mim
    O tempo que me escorre por entre os dedos
    Sem que tenha vontade de o agarrar...
    March, 2007

    Lisbon Revisited - 1923

    NÃO: Não quero nada. 
    Já disse que não quero nada. 

    Não me venham com conclusões! 
    A única conclusão é morrer. 

    Não me tragam estéticas! 
    Não me falem em moral! 

    Tirem-me daqui a metafísica! 
    Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas 
    Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — 
    Das ciências, das artes, da civilização moderna! 

    Que mal fiz eu aos deuses todos? 

    Se têm a verdade, guardem-na! 

    Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. 
    Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. 
    Com todo o direito a sê-lo, ouviram? 

    Não me macem, por amor de Deus! 

    Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? 
    Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? 
    Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. 
    Assim, como sou, tenham paciência! 
    Vão para o diabo sem mim, 
    Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! 
    Para que havemos de ir juntos? 

    Não me peguem no braço! 
    Não gosto que me peguem no braço.  Quero ser sozinho.  
    Já disse que sou sozinho! 
    Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! 

    Ó céu azul — o mesmo da minha infância — 
    Eterna verdade vazia e perfeita!  
    Ó macio Tejo ancestral e mudo, 
    Pequena verdade onde o céu se reflete! 
    Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! 
    Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta. 

    Deixem-me em paz!  Não tardo, que eu nunca tardo... 
    E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

     

    Álvaro de Campos